RESENHA | Livro: Pachinko – Min Jin Lee

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Mesmo sendo ambientado no Oriente, o livro Pachinko é uma narrativa de temática universal sobre grupos minoritários lutando por espaço e obrigados a conviver com o preconceito diariamente.

Ficha Técnica

Autor: Min Jin Lee
Editora: Intrínseca
Ano de lançamento: 12/2020
Sinopse: Livro Pachinko – No início dos anos 1900, a adolescente Sunja, filha adorada de um pescador aleijado, apaixona- se perdidamente por um rico forasteiro na costa perto de sua casa, na Coreia. Esse homem, Hansu, promete o mundo a ela, mas, quando descobre que está grávida ― e que seu amado é casado ―, Sunja se recusa a ser comprada. Em vez disso, aceita o pedido de casamento de um homem gentil e doente, um pastor que está de passagem pelo vilarejo, rumo ao Japão. A decisão de abandonar o lar e rejeitar o poderoso pai de seu filho dá início a uma saga dramática que se desdobrará ao longo de gerações por quase cem anos.

Neste romance movido pelas batalhas enfrentadas por imigrantes, os salões de pachinko ― o jogo de caça-níqueis onipresente em todo o Japão ― são o ponto de convergência das preocupações centrais da história: identidade, pátria e pertencimento. Para a população coreana no Japão, discriminada e excluída — como Sunja e seus descendentes —, os salões são o principal meio de conseguir trabalho e tentar acumular algum dinheiro.

Uma grande história de amor, Pachinko é também um tributo aos sacrifícios, à ambição e à lealdade de milhares de estrangeiros desterrados. Das movimentadas ruas dos mercados aos corredores das mais prestigiadas universidades do Japão, passando pelos salões de aposta do submundo do crime, os personagens complexos e passionais deste livro sobrevivem e tentam prosperar, indiferentes ao grande arco da história.

 

“Aprenda tudo. Encha sua mente de conhecimento. Esse é o único poder que ninguém pode tirar de você.”

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Introdução

Não poderia haver nada mais comovente do que uma história se passando num contexto histórico-prático. Min Jin Lee, autora deste best-seller internacional, em quase 30 anos de pesquisas, entrevistas, viagens e afins, finaliza este romance dramático envolto em tragédias, com pano de fundo histórico-cultural – resultados de guerras providas da miséria humana.

Quatro gerações nos são apresentadas, tendo como destaque Sunja, uma garota coreana de cidade pequena, que nasceu sob o imperialismo japonês na Coreia.

A linha segue de 1910 à 1989, com o livro sendo dividido em 3 partes: I – Gohyang/Cidade Natal, II – Pátria Mãe e III – Pachinko.

Pachinko, centro de convergência deste livro, nada mais é que um estabelecimento que promove jogos de azar com caça-níqueis e pinball. São muito comuns no Japão ainda nos dias de hoje, mesmo que o país proíba a prática. Estando entre a legalidade e a não-legalidade, movimentam bilhões por ano, o que acaba favorecendo o país com os impostos e talvez benefícios mais. Seus donos, em sua maioria, são coreanos, rechaçados no país. Pela atividade não ser tão bem vista e na tentativa de ganhar algum dinheiro, muitos coreanos nascidos no Japão foram para essas atividades, à exemplo dos filhos da protagonista Sunja.


Vários Nomes, Pouca Pátria

Para Sunja não fazia diferença a troca de nomes, ou o Tsumei, seu nome obrigatório japonês. Afinal, apesar da vida simples, mas tendo tudo o que precisava, com pais muito atentos e amorosos, ela nunca foi à escola, nem trabalhou em setores públicos. Naqueles anos, todos os coreanos precisaram de nomes e sobrenomes do país dominante.

“Quando os coreanos tiveram que escolher um sobrenome japonês (época do colonialismo Japonês sobre a CorEia inteira 1910 à 1945), o pai de Isak (marido da Sunja) escolheu ‘Bando’ porque soava como a palavra coreana ‘ban-deh’, que significa ‘objeção’, o que tornava seu sobrenome japonês obrigatório uma espécie de piada.”


Sensibilidade Notável

Não poderia deixar de mencionar a descrição da vida, e não da técnica, de um personagem como Honnie, o pai de Sunja, que tinha lábio leporino e mancava de uma perna. Assim também foi com Daisuke, no mais futuro, um menino que nasceu com alguma síndrome neurológica, a qual o fazia se comportar como uma criança de 6 anos, mesmo sendo adulto. Ainda mais futuramente, Hana, uma mulher japonesa que contraiu uma doença sexualmente transmissível. Nenhuma destas precisaram ser claramente mencionadas, a autora nos fez viver cada condição especial.

Assim também foi quanto aos fatos históricos. Ao ler este livro, Pachinko, podemos vivê-los, senti-los e não apenas lermos por ler.


Coreanos no Japão

“Os coreanos que viviam no Japão não eram mais cidadãos, quem tinha problemas com a polícia poderia ser deportado.”

Sunja saiu da Coreia ao se casar com um Pastor, que estava de viagem por sua região e teve uma crise de tuberculose. Doença esta que matou o pai da Sunja havia pouco tempo. Após se apaixonar por Hansu, um não tão jovem coreano que era muito influente tanto na Coreia, quanto no Japão (e outras regiões pelas quais nem imagino), ela se deixou seduzir e acabou engravidando dele. Porém Hansu era casado. Assim, para fazer um bem e agradecer pelos cuidados, Isak, o Pastor que se adoentara, a pediu em casamento e a levou para Osaka, no Japão, local onde vivia seu irmão mais velho Yoseb e a cunhada Kyunghee.

Em Osaka, Noa, filho de Hansu, nasceu como sendo filho de Isak. Após alguns anos, veio Mosazu.

Ainda que nascidos no Japão, os filhos de Sunja sempre foram vistos como estrangeiros, expatriados. Na Coreia, eram tratados como traidores da pátria, e no Japão, como “coreanos imundos”.

“… Para ela, ser coreana era apenas mais um terrível ônus, como ser pobre ou ter uma família indigna.” … “Também não se imaginava apegada ao Japão, que era como uma Madrasta  que recusava a amá-la…”

Mesmo rechaçados desde a escola, cada qual seguiu o próprio estilo para continuar vivendo. Porém, no final, ambos se encontraram no “Pachinko”, centro do livro.

“Vamos fazer dele um garoto do pachinko e mantê-lo longe das ruas.”

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Conhecendo Alguns dos Personagens (além da Sunja)

Hansu

Fala muito bem Japonês e Coreano. Desde o início demonstra ter ligações comerciais fortes e logo se percebe que é um sujeito perigoso. A menção ao seu trabalho como sendo um dos líderes da yakusa, máfia japonesa, aparece bem futuramente na trama. Ele trabalha por si e pelos seus. Detesta os “grupos políticos”. Além disso, Hansu tem um verdadeiro fascínio pela Sunja e, mesmo não aparecendo com frequência, sempre sabe dela.

Isak

Foi descrito como um jovem coreano charmoso, bondoso e sensível às causas diversas. Teve um irmão, Samuel, que fora considerado mártir e morrera após se juntar a um grupo político-religioso. Yoseb, irmão mais velho, o convidou para se juntar a ele em Osaka, no Japão. Para lá foi com a Sunja, como sua esposa, quando ela tinha 16 e ele 26. Trabalhou ganhando muito pouco como auxiliar de Pastor em uma Igreja protestante presbiteriana, apoiada por Canadenses e alguns poucos fiéis.

Yoseb

Irmão mais velho de Isak. Amava os sobrinhos como se fossem filhos, assim como ao irmão. Por tradição, ele era o chefe da família e a palavra final era sempre a dele, ainda que fizessem o contrário – Sunja o enfrentou bastante indiretamente. Casado com Kyunghee, não tinha filhos, e a esposa, muito submissa, porém extremamente leal e batalhadora, sempre cuidou de todos, inclusive dele – ainda mais durante os longos anos de agonia após a terrível tragédia que assolou Nagasaki, local onde Yoseb fora trabalhar durante o final da segunda guerra mundial.

Noa

Ele era um intelectual. Gostava de estudar e de ler. Para ele o aprendizado era uma diversão, o que deixava Hansu, seu pai biológico, orgulhoso.

“Como um homem faminto, Noa saciava sua mente ávida por bons livros. Leu Dickens, Thackeray, Hardy, Austen e Trollope. Depois leu Balzac, Zola e Flaubert antes de se apaixonar por Tolstoi. Seu favorito era Goethe – deveria ter lido Os sofrimentos do jovem Werther pelo menos umas seis vezes.”

Recluso em seu “mundo perfeito” da leitura, seus esforços para chegar a tão sonhada faculdade japonesa “Waseda”, lhe resultou em mais aprendizados, incluindo a abertura do olhar crítico.

“… Se gosta de tudo o que lê, não posso levá-lo a sério. Talvez não tenha refletido o suficiente sobre essas leituras.”

Ainda assim, Noa nunca conseguiu tirar o estigma do país de sua mãe e não conseguiu lidar tão bem com os preconceitos, como quando na escola regular.

Foi nessa mesma época que ele descobriu a verdade sobre sua filiação e, junto com a mãe Sunja, a profissão de Hansu, à qual ele chamou de “maldição”.

Apesar de tudo, Noa era um romântico. Ele se apaixonou pela caligrafia da futura esposa, Risa: “… espírito dançante na mão que escrevia de modo tão elegante.”

É interessante o gancho que a autora faz com os pensamentos de Noa na infância e nas suas desventuras como adulto. Ele apenas sabia que queria ser japonês, ainda que o chamassem de coreano, por vezes, de forma pejorativa.

Mozasu

Com características mais extrovertidas e espalhafatosas, o irmão mais novo de Noa, filho do Pastor Isak e de Sunja, arranjava muita confusão na escola pois não costumava ficar muito calado quando era ofendido. Assim como o irmão, não tinha amigos, até o dia em que Hiruki, um japonês pobre e rechaçado por isso, apareceu na escola e Mozasu o intimou a se defender e se pôs a ajudá-lo.

 “… Mesmo depois de adultos, nenhum dos dois jamais esqueceu como se tornaram amigos.”

Mozasu, ainda adolescente, enquanto ajudava a mãe e a tia a vender doces perto de uma estação de trem, foi colocado para trabalhar com um jovem senhor japonês bondoso, cujo tinha alguns estabelecimentos de “jogos de azar” (Pachinko, título deste livro). E desta ele não saiu mais.

Solomon

Criado para “não ser rechaçado”, o filho de Mozasu, quarta geração da família de Sunja no Japão, estuda em escola privada e se alfabetiza em Inglês e em Japonês. Apesar de sua identidade constar que seja “sul-coreano”, ele não fala o idioma, nem nunca foi ao país.

“Nascidos após 1952 – coreanos nascidos no Japão, ao completarem 14 anos, precisavam solicitar permissão para permanecerem no Japão. Após, essa licença seria renovada a cada 3 anos, a menos que deixassem o país para sempre.”


Apontamentos Curiosos

Repararam nos nomes bíblicos “americanizados”?

Era comum, na Coreia, batizarem os nomes dos seus nos termos em inglês. Para uma família cristã, mais comum ainda, às referências nominais bíblicas: Isak (Isaque), Yoseb (José), Samuel, Noa (Noé), Mozasu (Moisés) e Solomon (Salomão).

Além dos nomes, também há diversas referências a trechos bíblicos, como passagens em Oséias e na vida do profeta, se casando com uma prostituta; e de José, que perdoou os irmãos que tanto lhe fizeram mal.

Por agora, partamos para outro sentido.

As descrições físicas são uma constância. Veja esses exemplos, cujos têm até certa graça:

“Havia algo atraente e sensual em seus grandes braços rechonchudos e na barriga inchada… O faziam parecer uma foca vaidosa”

“Tinha os ombros delgados e largos e o pescoço comprido, que o fazia lembrar o desenho de um cisne em uma caixa de detergente.”

A autora também não poupou algumas descrições mais íntimas. Porém, no entanto, todavia, deixo a seu cargo para lê-las neste calhamaço.


Mais Destaques da Autora como Escritora

Os ganchos levantados ao final dos capítulos, em sua maioria, são muito bem-feitos, assim como os pensamentos da criança que se refletem, na prática, na vida adulta. Todo o texto abraça o contexto.

Em quase momento algum foi mencionada, diretamente, a segunda guerra mundial, seus efeitos e seus algozes, até porque o foco narrativo, ainda que em terceiro pessoa, muito se focou na Sunja – uma garota humilde, que nunca frequentara a escola. Reforçando a predominância da vivência e do sentido das coisas, mais do que no contexto literal e técnico.

A derrota do Japão, em meio a grande guerra, foi terrível para a Coreia – daí proveio a divisão oficial do país. O livro retrata a volta de alguns norte coreanos para a região, mencionando que nunca mais ouviram falar deles. Também fala das famílias nobres que perderam seus bens devido aos altos impostos e, muitas, foram executadas.

“No Norte (Coreia) vão matá-lo, no Sul vai morrer de fome”.

Muitos coreanos e seus descendentes, devido ao preconceito, acabavam trabalhando em empregos que estavam às margens da lei, como no Pachinko (ponto de convergência deste livro), e até mesmo em ligações com a yakusa, máfia japonesa. Nem todos eram de má índole, muito pelo contrário:

“… Gostava de trabalhar com coreanos que eram uma embalagem limpa em um trabalho sujo”


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Contando e Sensibilizando

No geral, acho fantástica a “contagem de histórias” em meio a um momento banal, ou qualquer, como em um jogo de cartas. Por exemplo, Solomon, o neto da Sunja, joga com colegas de trabalho, enquanto pensa e narra as desventuras da própria vida. O jogo ali é importante para a trama, incluindo para enfatizar o preconceito devido ao trabalho do pai com Pachinko – o centro deste livro, a fim de perceber mais sobre as características humanas dos personagens envolvidos. Mas, com certeza, a vida do personagem em destaque é a principal.

Gosto também das comparações que a autora faz.

Enquanto um personagem tem uma grande família, o outro nem tanto. Enquanto um é mais unido o outro não…

“… todos pareciam muito unidos, como se cada membro estivesse organicamente ligado a um só corpo indivisível, sem costuras, enquanto sua extensa família parecia um monte de peças de Lego soltas em um balde grande.”

De forma frequente, a autora mistura assuntos diferentes numa mesma frase. Algo que não complica muito a leitura. Na verdade, até dá ritmo a ela.

Não poderia esquecer das expressões japonesas e coreanas ao longo do texto, misturadas à tradução portuguesa. Nem todas estão referenciadas no glossário, mas são totalmente compreendidas no contexto do texto, graças as habilidades fantásticas desta autora.


Considerações Finais

O livro foi muito bem construído. Não é de se espantar que a autora levou quase 30 anos para finalizá-lo.

Aspectos histórico-culturais nos remetem a vivência de sentidos duma forma empática absurda. Ao ler, nos parece que está acontecendo conosco cada situação. Esse é o prazer da leitura. Esse é o sentido de se ler. E isso é o que nos torna mais maduros também para a vida.

Muitos acontecimentos da trama são esperados. Mas, outros, confesso a vocês que fui pega numa extrema surpresa, algo que não me acontecia há anos. E chorei desesperadamente nas páginas finais…

Está pronto para viver algo pela qual jamais pensou que viveria?

Houve pessoas, milhares de pessoas, que passaram e ainda passam por situações como estas. Assim, abrimos os olhos e embarcamos na luta para fazer e se ter um mundo melhor.

“Go-saeng… repetiu a palavra ‘sofrer’… Essa palavra a deixava nauseada. O que mais havia além disso? … A história falhou conosco, mas não importa.


 

Conforme notícia oficial da Editora Intrínseca, o livro Pachinko foi eleito um dos 10 Livros do Ano de 2017 pela Time e pelo The New York Times e foi finalista do National Book Award. Também teve os direitos de adaptação comprados pela Apple para uma série de TV de oito episódios, que contará com Lee Min-ho (Boys Over Flowers, The Heirs), Jin Ha (Devs, Love Life), Anna Sawai (Velozes e Furiosos 9, Giri/Haji), Minha Kim (Call, After Spring), Soji Arai (Cobra Kai, Legacies) e Kaho Minami (Angel Dust, Household X) no elenco.


Onde Comprar:

Amazon


Sobre a Autora

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Min Jin Lee é autora best-seller de Free Food for Millionaires e recebeu a bolsa de ficção da New York Foundation for the Arts, o Prêmio Peden de melhor conto e o Narrative Prize for New and Emerging Writer. Escreveu para as publicações The New York Times, Condé Nast Traveler, London Times, Vogue, Wall Street Journal e Food & Wine, entre outros. Tem ganhado muito destaque com Pachinko, o livro de quase 600 páginas.

Saiba mais em: MinJinLee.com


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FONTE ORIGINAL

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