Com apoio da UFV-MG, startup desenvolve pomada cicatrizante para diabéticos

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Mecânico e professor universitário desenvolveram projeto em Viçosa.
Com dívidas, parceiros quase desistiram, mas atraíram investidores.

Em  1999, o mecânico Aloísio José dos Reis bateu à porta do laboratório do professor Paulo César Stringheta, na Universidade Federal de Viçosa (UFV), propondo a criação de um produto inovador – uma bebida que tinha, em sua fórmula, extrato de urucum, planta usada por populares para curar diversas doenças e até emagrecer. O docente, especializado em alimentos, deu atenção à Reis e os dois começaram a trabalhar na ideia inicial.

Mais de uma década e meia depois, eles comemoram a chegada ao mercado de outro produto – uma linha de pomadas à base de semente do mesmo urucum usado há séculos, inicialmente pelos índios. Pouco depois do início da pesquisa da bebida, o mecânico se machucou ao manusear o extrato e, por acaso, deixou cair um pouco do material na ferida. Achou estranho que nenhuma inflamação tenha surgido e mais estranho ainda que o machucado tenha cicatrizado mais rápido que o comum.

“Aí ascendeu uma luzinha, tínhamos alguma coisa nova”, lembrou Stringheta ao G1. Os dois dedicaram 17 anos de suas vidas para desenvolver o produto, que até então era desconhecido.

Aperfeiçoaram o processo de produção, atraíram o interesse de investidores e hoje têm no mercado quatro formulações da pomada, capaz de reduzir o tempo de cicatrização das lesões cutâneas, sem efeitos colaterais e com resultados ainda melhores que o de produtos similares já conhecidos.

“Começamos com o conhecimento popular, colocamos ciência, levamos para um laboratório, testamos e hoje já está no mercado. Tudo foi por acaso. Ficamos um tempo fazendo testes com animais para ver a eficácia, a toxidade. De repente, começamos a distribuir para as pessoas, gratuitamente. Queríamos ver o retorno, os resultados”, contou.

A resposta popular foi maior que o esperado e os parceiros resolveram investir ainda mais na ideia. Em 2006, hospedaram a empresa recém-criada na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica do Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (Centev), veiculado à UFV. “Incubamos e continuamos trabalhando, só que precisávamos de recursos para colocar no mercado. Ele [Aloísio] vendeu a oficina para poder produzir esse material, arriscou muita coisa. Resolvemos manipular a primeira pomada em uma farmácia da cidade e, boca a boca, as pessoas começaram a procurar”, disse.

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Com o tempo, eles passaram a cobrar o preço de custo da pomada. Enquanto Stringheta fazia toda a parte laboratorial, Reis levava o medicamento para as pessoas. Mesmo assim, o processo ficou mais caro, as dívidas começaram a surgir e a ideia de proliferar o resultado das pesquisas chegou a um passo de ruir.

“Estávamos, até o ano passado, praticamente desistindo. Ficamos quase 10 anos na incubadora, estávamos devendo até o aluguel de lá. Testamos em diversos locais e pegamos relatos das pessoas que usavam. Até que apareceu um grupo com algumas pessoas que queriam investir e colocaram a ideia de desenvolver uma série de produtos”, explicou.

De lá para cá, a empresa cresceu, os parceiros se tornaram sócios do grupo de investimentos e os produtos estão em farmácias de todo o país, ajudando milhares de pessoas. A “Profitus Newderm” é utilizada no tratamento de doenças como psoríase, dermatite e outros problemas cutâneos e também pode ser encontrada no site da empresa: www.profitus.com.br

A  Ciência é meio burra”
Stringheta criticou a falta de paciência e tolerância com as quais órgão públicos e privados de incentivo à Ciência tratam os estudos e defendeu que a pressa em ver um resultado positivo e altamente lucrativo deixa escapar a chance de produzir inúmeras pesquisas consistentes que acabam tendo, como destino final, o abandono.

“A Ciência é meio burra. Ela quer que você pesquise em alto nível e esquece que você pode pegar um conhecimento popular e transformar aquilo em algo maior. Os órgãos de financiamento têm um volume imenso para trabalhar, mas para desenvolver alguma coisa, as entidades têm certa restrição, porque acham que não vai dar certo ou que vai demorar. A iniciativa privada também não gosta de investir. Quer utilizar, mas não quer financiar”, afirmou.

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Sobre o nível das pesquisas universitárias o professor disse que vê embasamento de projetos excelentes, mas o modelo que se estabeleceu em todo o país faz com que os estudos não tenham continuidade e que se priorize quantidade à qualidade. “Hoje, até para dar aulas, você tem dificuldade com recursos. Isso dificulta todas as suas pesquisas. Há alguns anos, o [vencedor do] Prêmio Nobel de Química esteve na nossa universidade e disse que tinha, em toda a sua carreira, oito trabalhos publicados. No Brasil, se você tiver isso, você não consegue fazer nada, você não é ninguém”, contou.

Ele vê em redutos como a UFV um campo de pesquisa altamente produtivo, principalmente pelo tamanho da cidade. “Quando você tem uma universidade em um polo menor, de uma forma geral, isso induz quem trabalha a ser muito mais dedicado, porque você convive com a universidade dia e noite. A nossa [universidade], por exemplo, têm 20 mil alunos e fica em uma cidade de 70 mil habitantes. Você acaba produzindo muito mais. Para os municípios, isso é maravilhoso. A expansão das universidades públicas em cidades menores é excelente, mas precisa ter uma gestão eficaz”, concluiu Stringheta.

Confira a matéria feita pelo programa Bem-Estar sobre as pomadas Profitus: https://globoplay.globo.com/v/5401178/

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