O Ártico derrete, mas quem se importa? – 22/09/2020

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O Ártico derrete, mas quem se importa? – 22/09/2020

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Paris, 22 Set 2020 (AFP) – Cientistas do governo americano informaram nesta semana que a capa de gelo do Oceano Ártico encolheu ao seu segundo nível mais baixo desde o início das medições por satélite, em 1979.

Até este mês, pela primeira vez nos últimos 42 anos, a capa de gelo da Terra cobria menos de 4 milhões de km2.

A tendência é clara: a extensão da capa de gelo diminuiu 14% por década durante esse período. O Ártico pode experimentar um primeiro verão sem gelo a partir de 2035, conforme publicaram no mês passado cientistas na Nature Climate Change.

Mas se toda essa massa de gelo e neve derretidos não aumentam diretamente o nível do mar, assim como cubos de gelo derretidos não fazem transbordar um copo d’água, há uma questão incômoda: quem se importa?

Trata-se de um alerta importante.

“O declínio da camada de gelo do Ártico no verão é um dos sinais mais claros e inequívocos da mudança climática”, explica Julien Nicolas, um especialista em Ártico que integra o programa de observação da Terra da União Europeia (UE).

– Sintoma e fator desencadeante -Talvez a coisa mais básica a se notar, de acordo com os cientistas, é que o encolhimento da capa de gelo não é apenas um sintoma do aquecimento global, mas também um fator que o desencadeia.

“A diminuição do gelo marinho afeta o oceano escuro (profundo), o que cria um poderoso mecanismo de retroalimentação”, disse à AFP Marco Tedesco, geofísico do Instituto da Terra da Universidade de Columbia.

A neve que acaba de cair reflete 80% da força radiativa do Sol de volta ao espaço.

Mas quando essa superfície semelhante a um espelho é substituída por outra de água azul profunda, aproximadamente a mesma porcentagem da energia de aquecimento da Terra é absorvida.

E não se trata de uma área equivalente a um endereço postal: a diferença entre o mínimo médio da capa de gelo de 1979 a 1990 e o ponto baixo apresentado hoje, mais de 3 milhões de km2, é o dobro da França, Alemanha e Espanha juntos.

Os oceanos já absorveram 90% do excesso de calor gerado pelos gases de efeito estufa, mas a um custo assustador, com resultados como sua química alterada, ondas massivas de calor marinho e danos a recifes de coral.

E a certa altura, alertam os cientistas, esse sistema que absorve como esponja esse calor líquido pode ficar saturado.

– Alteração de correntes marinhas -O complexo sistema climático da Terra inclui as correntes oceânicas vinculadas entre elas, impulsionadas pelo vento, marés e algo chamado circulação termoalina, que é impulsionada simultaneamente por mudanças na temperatura e pela concentração de sal.

“Uma mudança na capa de gelo poderia interromper este tipo de ‘grande esteira transportadora’, como é conhecida, de forma que traria consequências importantes ao clima da Europa”, ressalta Nicolas à AFP.

Por exemplo, há quase 13.000 anos, quando a Terra estava em transição de uma idade do gelo para o período interglacial, algo que permitiu o desenvolvimento de nossa espécie, as temperaturas globais caíram drasticamente em vários graus Celsius. Aumentaram novamente cerca de 1.000 anos depois.

Evidências geológicas sugerem que houve uma desaceleração na circulação termoalina causada em parte por um fluxo maciço e rápido de água fria e doce da região do Ártico.

“A água doce do gelo derretido e do gelo na Groenlândia perturba e enfraquece a corrente do Golfo”, uma parte da esteira transportadora que flui para o Atlântico, alerta Xavier Fettweis, pesquisador associado da Universidade de Liège, na Bélgica.

“Isso é o que permite que a Europa Ocidental tenha um clima temperado em comparação com a mesma latitude da América do Norte”, acrescenta.

A enorme capa de gelo sobre a massa terrestre da Groenlândia perdeu mais de meio trilhão de toneladas no ano passado, que fluíram para o mar.

Diferentemente da situação do Ártico, que não aumenta o nível do mar quando derrete, a água proveniente da Groenlândia o faz.

A situação atual, com a ocorrência de verões sem gelo, deixaria os ursos polares sem comida até a extinção, projetada para o final do século, segundo estudo publicado em julho pelo periódico científico Nature.

mh/lc/age/me/bn

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