Filme de David Bowie sofre com modelo de ‘Bohemian Rhapsody’

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Filme de David Bowie sofre com modelo de ‘Bohemian Rhapsody’

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Em pouco mais de 2 minutos de trailer, o filme Stardust, a cinebiografia não autorizada de David Bowie já incomodou muita gente. O que é justo. Sobram críticas até ao ator escolhido (Johnny Flynn, protagonista da série inglesa disponível na Netflix Lovesick), mas ele está longe de ser o problema.

A questão está mais na raiz do filme. No conceito de cinebiografias sem sal, com excesso de açúcar.

Assistir ao trailer de “Stardust” é como pedir um belo prato de macarrão em um restaurante e o molho de tomate vir doce demais. Cadê o sal? Por que tanto açúcar?

Vou deixar o trailer para vocês assistirem também, caso queiram:

A higienização das trajetórias do rock

E a culpa por essa limpeza das histórias dos ícones da música, uma espécie de “filtro Disney” que deixa tudo mais colorido, menos polêmico e mais romantizado, é de “Bohemian Rhapsody”.

Depois que a história de Freddie Mercury e do Queen, filme de 2018, ganhar tantos prêmios (inclusive 4 estatuetas do Oscar, uma para o ator que viveu o vocalista Rami Malek) e bater a marca de mais de US$ 1 bilhão em arrecadação de bilheteria ao redor do mundo, esse se tornou o novo padrão.

A realidade é que “Bohemian Rhapsody” é um filme medíocre em termos de cinema, mas que conquista corações já conquistados pelas músicas e história do Queen. Era um jogo ganho, daqueles que só se perde se você realmente entregar a bola para o adversário e disser: “Pronto, agora faz um gol contra a gente”.

“Bohemian Rhapsody” entregava falhas de roteiro (pra quem curte cinema e não a banda) e falhas históricas (para quem curte a banda e não cinema). Para quem amava ambos, o problema é ainda maior.

O filme de Freddie Mercury e Queen abriu uma porteira para a higienização das histórias da música. E isso é, realmente, perturbador. Personagens humanos se tornam mitos em jornadas bregas de reconstrução.

Freddie Mercury era um alguém muito mais complexo do que Rami Malek e os roteiristas de Bohemian Rhapsody fizeram parecer.

E o Elton John?

O mesmo aconteceu com a história de Elton John nos cinemas. O filme “Rocketman”, que tinha uma participação mais ativa do próprio astro inglês, minimiza todos os problemas com drogas e álcool. E, pior, romantiza essa parte da narrativa quando ela surge, como se quisesse dizer: “Viu só como falamos sobre as drogas?”.

Para quem queria algo mais próximo da realidade, como o título “cinebiografia” sugere, isso passa longe.

Sobrou para o Camaleão

E aí chegamos em “Stardust”, filme cuja ideia é mostrar o nascimento do personagem Ziggy Stardust, de David Bowie, lançado com o álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, de 1972.

É um recorte histórico definitivamente bem “Disney” da história de Bowie, das inúmeras tentativas do artista (antes conhecido como Davy Jones) de alcançar a fama. E as muitas derrotas também.

Antes de Ziggy Stardust, o personagem alienígena deliciosamente andrógeno que vinha ao planeta Terra para se tornar um grande rockstar, Bowie levou inúmeras pancadas da vida. Obteve sucesso, também, como com a música “Space Oddity”, na qual Bowie apresentava o primeiro personagem de sucesso dele, o Major Tom, astronauta cuja missão espacial tem um final trágico.

Teriam outros recortes melhores para entender a vida de Bowie? Sim. Nos meados dos anos 70, quando o abuso de cocaína o levou a fazer um “retiro” em Berlim e lançou uma trilogia de álbuns experimentais – e icônicos, “Low” (1977) “Heroes” (1977), “Lodger” (1979).

Ou mesmo os últimos anos de vida de Bowie, quando ele decidiu se afastar dos palcos ao ter um problema cardíaco diagnosticado, mas voltou uma década depois com o álbum “The Next Day” (2013) e o último da carreira, “Blackstar” (2016), lançado poucos dias antes de morrer.

David Bowie é o personagem mais fascinante entre os gigantes da música pop. “Stardust” soa como um filme de origem limpinho demais. Pouco sal e com excesso de açúcar.

“Garçom, você se importa de trocar esse prato pra mim?”

FONTE ORIGINAL

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