Resenha | Livro: Torto Arado – Itamar Vieira Junior

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Torto Arado: um texto épico e lírico, realista e mágico que revela, para além de sua trama, um poderoso elemento de insubordinação social.

 

Ficha Técnica

Autor: Itamar Vieira Junior
Editora: Todavia
Ano de lançamento: 2019
Sinopse: Nas profundezas do sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas ― a ponto de uma precisar ser a voz da outra. Numa trama conduzida com maestria e com uma prosa melodiosa, o romance conta uma história de vida e morte, de combate e redenção.

 

Homenagem Livro Torto Arado


Introdução


O livro primeiramente lançado em Portugal, com autor brasileiro: Torto Arado ganhou o prêmio Leya em 2018, mas se tornou febre no Brasil em 2020 com as conquistas dos prêmios Jabuti na categoria: Romance Literário; e Oceanos. Além disso, já vendeu mais de 70 mil exemplares e, está óbvio que será apenas o começo.

Tortoarete, isto é – fã de “Torto Arado”, ou não; partamos para uma das melhores histórias que já li nos últimos tempos. Leiam até o final e decidam por si mesmos se vale a pena ou não tal leitura e se, realmente, é digna do crédito.

De antemão, o livro é dividido em 3 partes: Fio de Corte, Torto Arado e Rio de Sangue. Cada qual tem um foco narrativo, ainda que em terceira pessoa. No entanto, na parte 3 “Rio de Sangue” essa “terceira pessoa” ganha voz, ainda que não tenha corpo: um espírito, ou “encantado”, conforme crença, como muitos referenciam ao mencionar os “santos” aos quais cultuam.

O Início

No sertão baiano, em Água Negra, habitavam várias famílias. A maioria era negra e outras se diziam “índios”. Algumas dessas famílias chegaram há pouco, outras estão chegando; e outras ainda, estão lá há algumas gerações… Não dá para se precisar os anos ao certo, pois parecem iguais – todos em sofrimento, muita labuta e quase nenhuma conquista. Quase…

Não havia se passado mais de meio século desde a abolição da escravatura. Ainda assim, mesmo não sofrendo grandes castigos e, em tese, podendo “ir e vir”, a condição de “escravo” praticamente continuou.

“Quando deram a liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por morada.  A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. Mas que liberdade? Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos…”

As famílias podiam habitar nas terras e trabalhar nelas, em troca da moradia e de cerca de um terço de tudo o que cultivavam. No entanto, havia regras… Não podiam construir casas sólidas, por exemplo. Somente de barro… Daquelas que precisavam de reparos constantemente e não aguentavam chuvas torrenciais. Além disso, não podiam deixar de pagar os “impostos”, dando quase todo o trabalho árduo para os proprietários de uma terra que, sem eles, nem existiria. Ademais, é importante frisar que tais proprietários, muitas vezes, nem iam até eles. Podiam até ter casa na região, mas não moravam lá. Havia pessoas encarregadas de fazer cumprir as exigências. Caso se negassem aos mandos e desmandos, seriam expulsos daquelas terras, sem qualquer restituição ou pagamento.

“Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. … Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores.”

O texto leva em consideração alguns fatos históricos, como por exemplo: a obsessão pelo diamante, fosse pelos escravos, mas principalmente, pelos donos de terras:

“O diamante se tornou um enorme feitiço, maldito, porque tudo que é bonito carrega em si a maldição. Vi homens fazerem tratos de sangue…”

É interessante os adjetivos apregoados a pedra preciosa em questão. Pois, há outro objeto que dividirá bem essa história, cujo valor é inestimável.

Há de se destacar a família de José Alcino, mais conhecido como “Zeca Chapéu Grande”, afinal, essa narrativa começa com um grande acidente envolvendo duas de suas filhas, ainda muito pequenas (5, 6 anos de idade): Bibiana e Belonísia.

Objeto que inicia, divide e finaliza: A Faca

Ganhando destaque logo no início da narrativa e sendo peça importante durante toda a trama, “a faca” é um item muito especial para a família do Zeca. Guardada com cuidado por Donana, mãe do Zeca, envolta em um pano cheio de sangue, oculta numa mala, aliás, tomada até como “objeto de herança”. Mas, também guarda uma “maldição”, assim como o diamante…

Bibiana e Belonísia ficam encantadas com tal objeto. E assim tudo começa… Ou talvez, seja o início de um renovo. O encanto gerado pela faca nunca haveria de passar…

“Por que a faca estava envolta naquele tecido sujo de sangue?” (…) Por que minha avó guardava essa faca com tanto medo? (…) Minha avó tinha mais medo do que essa faca significava”

Devido a tamanho fascínio, houve um grande acidente o qual mutilou a língua de uma das meninas e marcou, para sempre, a vida de todos.

Bibiana e Belonísia - Livro Torto Arado


As Personagens


Bibiana

“Às mãos sujas e grossas como as do pai, como as do povo que trabalhava na roça.”

Possui forte ligação com a Belonísia, que é um ano mais nova – é como se fossem complemento uma da outra. Desde o acidente com a faca, as irmãs ficaram mais ligadas – uma era a voz da outra e uma sentia o que a outra sentia. O espírito guerreiro de ambas faz muita diferença na história. O foco narrativo se mantém nela na primeira parte do texto, chamada: “Fio de Corte”.

Belonísia

“Era a fúria que havia cruzado o tempo. Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada. Gente que atravessou tudo suportando a crueldade que lhes foi imposta. (…) Selvagem, conhecia a terra como ninguém. “

Belonísia trabalhava melhor do que muitos homens no arado. Também se destacava nas tarefas domésticas e no cuidado com a família. Tinha uma ligação muito especial com a irmã mais velha, Bibiana, selada como num “pacto de sangue” desde o descobrimento da “faca”. É quem narra a parte 2 do texto, chamada: “Torto Arado”.

“… como se estivesse sempre esperando a oportunidade para demonstrar a sua força, seus conhecimentos e sua destreza.”

Donana

“A mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força de seu corpo. (…) A mulher que enterrou dois maridos, e só não enterrou o último porque o sangrou como se sangra uma caça.”

Mãe de Zeca e, sendo assim, avó de Bibiana e Belonísia, não se sabe qual era o nome verdadeiro dela ao certo. Todavia, deduzia-se que fosse “Ana”, pois era conhecida como “Donana”. Notem o tratamento dado aos trabalhadores, logo após a abolição da escravatura. Dona da “faca amaldiçoada”, ficou com sinais de demência quando as meninas ainda eram pequenas. Falava muito numa “onça” e na filha que desaparecera. Era parteira da região e muito sensitiva. No entanto, se esquivava das tarefas “espirituais”, passando-as para o filho “Zeca”.

Zeca Chapéu Grande (José Alcino)

Era um pai de sangue e pai espiritual. Também era um mediador entre os trabalhadores e os proprietários das terras. Por seu intermédio, conseguiu uma escola na região, por exemplo. Mas, a falta do crédito devido fez com que os filhos começassem a nutrir mais rancor pelo modo de vida que levavam.

“Mãos antigas e grossas de trabalho, como se tivesse muitas luvas de pele e de calos as calçando.”

Como a maioria, trabalhava quase sem descanso, numa terra que não lhe pertencia, mas lhe permitia sobreviver e criar sua gente.

Ademais, em certo trecho, diz que ele nasceu 30 anos após a abolição da escravatura.

“Era um curador respeitado e conhecido além das cercas de Água Negra.” 

Desse modo, qualquer doença ou “manifestação” eram tratados por ele, em sua casa.

Assim narra Bibiana em determinado trecho:

“… havia crescido entre loucos e xaropes de raiz, entre velas e tambores. A simples presença de um encantado que eu não conhecia não seria capaz de me intimidar, fosse uma real manifestação do encanto ou da loucura.”

Salustiana (Salu)

Esposa de Zeca, mãe de Bibiana, Belonísia e de mais dois filhos de sangue. É descrita como uma mulher alta e forte. Se tornou a parteira da região, após a morte de Donana, mas não se considerava tão boa quanto.

Severo

Primo de Bibiana e Belonísia que chegou quando ainda era muito jovem. Tem muitos sonhos e planos, se junta a sindicatos que possam favorecer e lhes atribuir o que é de direito. Mas, porém, no entanto, todavia… Há sempre um preço à pagar pelo que acreditamos. Ademais, chega a ser motivo de intriga entre as inseparáveis irmãs.

Faca - Livro Torto Arado


Desenvolvimento


Desde já menciono o pouco “diálogo”, assim como, a forma utilizada para destacá-lo. Alguns críticos não curtiram muito a “voz narrativa” do texto… Porém, quero lembrá-los de algo: alguém muito importante na trama, talvez a mais destacada, emudeceu. Assim, a narrativa a acompanhou.

“O som do mundo havia sido a sua voz”

Friso ainda que, por quase 30% do livro não se sabe ao certo quem teve a língua mutilada: Bibiana ou Belonísia? O fato é que uma se tornou a extensão da outra. Uma era capaz de sentir o que a outra sentia, quase como se fossem uma única pessoa. É interessante essa jogada na história, pois com o foco narrativo em ambas, gera-se muita empatia e simpatia pelos tratos e distratos.

“… fascinação pelo brilho da lâmina… quando pôde tê-la nas mãos outra vez, se viu em seu reflexo, com o mesmo brilho nos olhos, a menina e a velha, a inocente e a culpada. O fio de corte dividiu sua vida a partir daquele ponto, nos tempos que se foram. E cada vez que o lustrava e observava a sua imagem refletida naquele espelho sabia que sua vida poderia ser dividida de novo.”

Ainda que não saibamos ao certo os anos, é dito que Zeca, pai das meninas, nasceu 30 anos após a abolição da escravatura. Ou seja, em torno de 1918. Bibiana tinha 6 anos, e Belonísia 5 quando se acidentaram com a faca… Saltando bruscamente no tempo, uma das meninas se contempla no reflexo da dita-cuja, relembrando a menina que fora e a “velha” que se tornara (citação acima)Isto é, a vida inteira das meninas é praticamente narrada, mas “o fim” traz um novo começo.  Zeca ainda viu alguns dos netos – e eles estavam grandes… Enfim, muitos anos se passam para as quase 300 páginas de luta. Verdadeira e sangrenta luta!

Salustiana, ou Salu, a mãe – não tem lá grande destaque. Ela não parece capaz de perscrutar as filhas, as quais praticamente se criam sozinhas, com a companhia uma da outra, até determinado momento da vida: aquele em que cada um toma o seu próprio rumo. No entanto, Salu conta histórias da família e do povo pelas quais influenciam indiretamente a decisão e a vida das personagens. Além disso, seu papel de parteira é fundamental, afinal não há postos de saúde ou médicos nas proximidades e nem sempre há carros (carroças e afins) disponíveis para se chegar na “cidade”. Ainda assim, ela não é tão habilidosa quanto Donana, a sogra, cuja vida é contada nas páginas finais do livro. Salu é muito respeitada por ser esposa de “Zeca Chapéu Grande”, um “pai de santo”.

Indo nesse embalo, outro grande destaque vai para as festas de jarê, uma religião de matriz africana. Elas são muito comuns na casa de Zeca e fazem marcações interessantes no texto. Uma delas é a revelação, por intermédio de uma pessoa possuída por um “encantado”, entregue para as filhas dele, ou seja, as que protagonizam essa história.

Gostei bastante de várias sutilezas no texto. A vivência descrita, mais do que “contada”, nos proporciona um entendimento e compreensão muito maior da situação de vida; nos colocando a vivê-la também: ou seja, empatia. Ainda que de uma forma relativamente leve, a narrativa é um componente muito importante para amadurecermos e nos movermos, saindo das nossas próprias bolhas.

“Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida…”


Considerações Finais


Em suma, eu reparei que as ações eram, e devem ser, mais importantes do que qualquer falatório. Um livro com poucos diálogos nos sugestiona a emudecer junto, ao menos quando se trata do uso da “língua”, pois o cérebro não deixa de trabalhar. E o corpo também… E como trabalha…

“Torto Arado” é um livro que narra as gerações de uma família batalhadora, corajosa; que levam marcas semelhantes, mas com pesos diferenciados. Alguns lutam mais por si mesmos, outros, no único intuito de deixar uma vida melhor para os seus – quase não tendo esperança para si. Não dá para dizer que tais sensações tenham passado na pós-modernidade, muito pelo contrário, porém será que o entendimento pela dor do outro ainda existe? Haveria pessoas como Bibiana e Belonísia por aí? Capazes de perceberem uns aos outros como sendo eles mesmos? É um elo… Uma ligação muito forte… Ainda assim, não é capaz de aprisionar. Há outros meios de se chegar à prisão.

“O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada.(…)Seria  bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho.”

Enfim, leia e reflita. Trata-se de um povo. Do nosso povo. De nós mesmos. De uma parcela em nós muito significativa, que nos faz o que somos e o que seremos.

Informação extra: os direitos para adaptação audiovisual do livro “Torto Arado” foram adquiridos pela produtora Paranoid e o romance vai virar um filme ou série comandada por Heitor Dhalia.

Imagem Amazon - Torto Arado


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