O plano inovador da Finlândia para atrair profissionais estrangeiros – 16/02/2021

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No fim de fevereiro, Alli Ottarsson desembarcará em pleno inverno finlandês para uma experiência de 90 dias em uma realidade alternativa, tendo um gostinho de como a vida poderia ser se ele morasse em Helsinque.

Ele estará acompanhado da noiva e da filha de 4 anos, além de outros 14 profissionais selecionados para participar de um novo programa que visa atrair trabalhadores do setor de tecnologia para a capital finlandesa.

Cerca de 5.330 pessoas de todo o mundo se inscreveram no fim do ano passado para esta oportunidade de relocação gratuita de 90 dias oferecida pela Helsinki Business Hub, agência de promoção de investimentos e comércio internacional da capital finlandesa.

A agência proporcionará aos 15 selecionados um veículo para buscá-los no aeroporto, orientação cultural, experiências típicas finlandesas, instalações de trabalho remotas, apresentações às redes locais de negócios e toda a documentação necessária para uma estadia de três meses.

Os profissionais também receberão assistência para questões relacionadas à hospedagem, creche e escola para os filhos.

O programa não paga os gastos com passagem aérea e acomodação, mas se o teste for positivo, todos podem solicitar residência permanente.

Ottarsson, um investidor na indústria de videogames, se inscreveu porque estava frustrado com o aumento de casos de covid-19 em Los Angeles, onde mora.

Ele espera explorar oportunidades de investimento na próspera indústria de jogos de Helsinque, assim como “abrir os horizontes da família” enquanto enfrentam a pandemia em uma das cidades menos afetadas pelo vírus da Europa.

“Minha noiva também trabalha na área de negócios, então vemos isso como uma oportunidade de realmente expandir nossa rede de contatos na região”, diz Ottarsson.

Segundo ele, o programa em Helsinque “é quase como uma versão para adultos de uma colônia de férias ou curso no exterior”.

“É algo para sair de seus círculos sociais normais e conhecer gente nova.”

A iniciativa, chamada de “90 Day Finn”, atraiu muita atenção nas últimas semanas e ajudou a colocar Helsinque fortemente no mapa de destinos para profissionais de outros países.

Embora apenas 15 candidatos selecionados embarcarão para Helsinque, os criadores do programa esperam que a publicidade gerada pela campanha atraia mais estrangeiros qualificados para ajudar a preencher a lacuna de talentos em seu crescente setor de tecnologia.

Se a iniciativa der certo, pacotes de realocação como este podem se tornar uma nova ferramenta na competitiva corrida para atrair profissionais estrangeiros.

‘Sentimos que era o momento certo para fazer algo diferente’

A Finlândia pode ter dado ao mundo o sistema operacional de código aberto Linux, a gigante das telecomunicações Nokia e até a tecnologia SMS por trás das mensagens de texto, mas tem enfrentado dificuldade para gerar uma força de trabalho que responda à crescente demanda no setor de tecnologia.

“Temos um bom sistema educacional e treinamos muitos engenheiros e programadores, mas a demanda é tão grande que o número de graduados simplesmente não é suficiente”, explica Johanna Huurre, do Helsinki Business Hub.

“Além disso, não acreditamos que toda a sabedoria reside na Finlândia; ter talentos internacionais diversos ajudará nossas melhores ideias a viajar o mundo.”

Huurre observa que a Finlândia não é um destino popular para talentos globais.

“Sentimos então que era o momento certo para fazer algo diferente”, oferecendo uma maneira prática de vivenciar Helsinque.

“Quando as pessoas vêm para a Finlândia, tendem a ficar, por isso precisávamos encontrar uma maneira engenhosa de atraí-los para cá.”

O fato de Helsinque ser uma cidade com menos de 1 milhão de habitantes em um país com menos de 6 milhões pode colocá-la em desvantagem, apesar de ter um ecossistema de start-ups avaliado em US$ 5,8 bilhões.

No último Índice de Competitividade Global de Talentos (GTCI, na sigla em inglês), a cidade ocupa o 31º lugar no ranking mundial, bem atrás inclusive de vizinhos próximos, como Estocolmo e Copenhague.

Felipe Monteiro, professor da escola de negócios Insead e diretor acadêmico do GTCI, destaca que Helsinque está mais abaixo na lista por ser uma cidade menor, com menos influência global, menos fluxo de turistas e menos sedes de multinacionais.

Joonas Halla, chefe de reforço de talentos da Business Finland, observa que os setores que buscam trabalhadores no momento incluem segurança cibernética, tecnologia espacial, tecnologia de saúde, jogos e computação quântica.

Aqueles que procuram emprego, por exemplo, na área de mineração e análise de dados ou engenharia de software, podem esperar ganhar até 4.113 euros por mês com a baixa concorrência.

‘Uma sociedade em que as coisas funcionam’
Huurre disse que ficou impressionada com o número e a qualidade dos candidatos inscritos no programa de 90 dias, dos quais 30% eram americanos e o restante estava espalhado por todos os continentes.

A maioria (70%) era composta por trabalhadores remotos, enquanto 16% eram empresários.

Havia ainda 60 investidores, incluindo Ottarsson.

A Helsinki Business Hub criou agora um banco de dados em que os candidatos que não foram selecionados podem deixar seus perfis para serem analisados por empresas locais. Afinal de contas, o objetivo não é apenas atrair 15 pessoas; Helsinque quer que o maior número possível de candidatos qualificados seja realocado.

Embora o programa seja aberto a cidadãos de qualquer país, os organizadores não esconderam seu principal alvo: profissionais de tecnologia da costa oeste dos EUA, que talvez estejam fartos

Joonas Halla destaca que o sistema de seguridade social nórdico, com sua licença parental generosa e assistência médica universal, também provou ser um fator importante para convencer trabalhadores de climas mais ensolarados como a Califórnia.

“Obviamente, se você quer apenas calor e sol, a Finlândia pode não ser o lugar para você, mas se você gosta das quatro estações e quer ter uma sociedade em que as coisas realmente funcionam, a Finlândia é uma ótima opção”, acrescenta Halla.

“Queremos manter nosso modelo de estado de bem-estar social nórdico e precisamos de talentos e investimentos para que isso aconteça.”

Harinder Jaswal, bioquímica e especialista em assuntos regulatórios, se mudou do Vale do Silício para Helsinque em 2019.

O que atraiu Jaswal foi a oportunidade de trabalho remoto e a possibilidade de equilibrar melhor a carreira profissional e a criação dos três filhos pequenos na terra natal do pai deles.

“Aqui eles entendem que a família é importante, que o tempo livre é importante”, diz ela.

“Nos EUA, eu sempre estava estressada indo a reuniões e correndo para casa para levar as crianças na aula de futebol; não tinha muita flexibilidade.”

Por ser uma mulher negra, Jaswal não se sentia bem-vinda nos “Estados Unidos de Trump”. Esse fator, além do aumento dos incêndios florestais, do trânsito e de um sistema de escolas com poucos recursos, fez com que ela sentisse que era hora de deixar o Vale do Silício e buscar uma nova oportunidade em outro lugar.

Segundo ela, a transferência para a empresa Espoo, nos arredores de Helsinque, foi “maravilhosa”, mas também desafiadora.

Jaswal conta que não é fácil se acostumar às baixas temperaturas e, embora a Finlândia seja frequentemente considerado o “país mais feliz do mundo”, entender a cultura finlandesa pode levar um tempo.

“As pessoas não são tão extrovertidas ou sociáveis

“Às vezes, como americano, você pode achar que tudo é muito barulhento. Os finlandeses são mais quietos e valorizam seu espaço pessoal.”

‘Prova de conceito’
Felipe Monteiro, do Insead, acredita que o programa 90 Day Finn é um exemplo interessante de como centros menores podem pensar em maneiras criativas de competir com cidades como San Francisco, Londres e Cingapura.

“O simples fato de fazer um experimento como esse é, para mim, um bom sinal porque mostra o dinamismo deles”, avalia.

Mas será que é apenas uma boa jogada de marketing ou um projeto com chances reais de sucesso?

“Isso vai depender se eles estão apenas fazendo isso para obter alguma visibilidade ou se vão usar essa experiência para aprender com os dados em termos de que tipo de pessoas se candidatam, que tipo de carreiras atraem e quem decide ficar.”

É claro que ir e ficar são duas coisas muito diferentes. Ottarsson, o investidor em videogames, está prestes a embarcar para Helsinque, mas não comprou passagem só de ida.

“Se mudar dos EUA é certamente uma possibilidade que nossa família tem discutido, mas não está na agenda por enquanto”, revela.

“Acho que isso é mais um teste para ver como é estar em um lugar onde você não tem uma rede.”

Ottarsson pode estar fazendo um teste, mas Monteiro diz que Helsinque também.

“Se fizerem isso direito, pode ser uma prova de conceito que os ajudará a elaborar planos de realocação mais eficazes e atrair talentos dispostos a ficar mais tempo”, afirma o especialista do Insead.

“Outras cidades deveriam tomar nota.”

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