O Bem-Amado, agora no Globoplay, é retrato do Brasil de todas as épocas

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O Bem-Amado (1973), novela de Dias Gomes que o Globoplay disponibilizou nesta segunda-feira (15), é, acima de tudo, um registro histórico. De um tempo no qual a TV brasileira descobria a cor – trata-se da primeira produção a cores do gênero – e o Brasil. Nas ações e nas falas dos moradores de Sucupira, fictícia cidade baiana que abriga a narrativa, há muito do país de ontem e de hoje.

Em cena, Odorico Paraguaçu (criação magistral do inesquecível Paulo Gracindo), candidato a prefeito do lugarejo, cuja campanha baseia-se na construção de um cemitério. Os mortos de Sucupira são enterrados na cidade vizinha, a três léguas dali como destacou Zelão das Asas (Milton Gonçalves). O projeto de Odorico visa, conforme o próprio salientou, que os defuntos não mais balancem “a defuntice” numa rede.

Usando desta promessa e do vocabulário rebuscado – boa parte dele inventado entre um discurso e outro –, Odorico consegue ludibriar os filhos de Sucupira. A disputa eleitoral é tratada com humor. Enquanto Paraguaçu galanteia as três irmãs Cajazeira (Dirce Migliaccio, Dorinha Duval e Ida Gomes) nas reuniões de chapa, o rival Lulu Gouveia (Lutero Luiz) ampara-se na falácia de sempre, sobre comida e educação.

O “circo” conta ainda com as interferências da família Medrado, especialmente Donana, delegada eventual desde que o titular Joca (Ferreira Leite), seu marido, ficou preso a uma cadeira de rodas após tomar um tiro justamente por entreveros políticos. Donana sobe no palanque de Lulu para, atrapalhada, investir em argumentos frágeis como o fato do candidato ser dentista e, por isso, falar “da boca pra dentro e não da boca pra fora” como o oponente.

Por trás do conflito político, há a crítica aos poderosos de então, tão próximos dos de hoje. Tal qual muitas figuras de Brasília, Odorico Paraguaçu apoia-se na aura de “homem do povo” e no moralismo. Flerta tanto com o candomblé, quanto com o catolicismo, apenas pelo voto. Isto implica, ainda, numa crítica à intolerância religiosa: o Vigário (Rogério Froes) nega-se a abençoar quem participou da festa para Iemanjá, como se não fossem todos filhos de Deus.

Os cincos primeiros capítulos de O Bem-Amado, que acompanhei tão logo o Globoplay disponibilizou, contemplam também os conflitos de Telma (Sandra Bréa, belíssima), filha de Odorico. Parece claro, em sua apresentação, que a moça aproveita a vida como bem entende em Salvador, relacionando-se com o médico Juarez Leão (Jardel Filho), alcoólatra, ocasionalmente.

As sequências, contudo, não permitem o enquadramento dos atores num mesmo plano. Moça solteira em novela, durante a ditadura militar, não podia ir pra cama. No primeiro encontro de Telma com Neco Pedreira, Sandra Bréa sequer parece estar na praia ao lado do colega Carlos Eduardo Dolabella – a tecnologia ainda deficitária deixa o chroma-key tão evidente quanto o desequilíbrio de cores da berrante década de 70.

Ainda assim, Dias Gomes e a produção, chefiada pelo diretor Régis Cardoso, conseguiam transmitir a mensagem em prol do empoderamento feminino. Telma confronta o machismo do pai; chega a brincar sobre a então controversa pílula integrada ao plano de governo. O contraste se dá com as moralistas Cajazeiras – Dulcinéia (Dorinha), por exemplo, resiste em ficar sozinha com Dirceu Borboleta (Emiliano Queiróz) na casa deste.

Curioso é que outro take, de Telma e Neco aos beijos durante um banho de mar, passou tranquilo pelos censores do regime. Aliás, estabelece-se aí o conflito romântico: Neco namora Anita (Dilma Lóes), neta dos Medrado; Juarez seguirá em breve para Sucupira. O forte de O Bem-Amado, contudo, está nas desavenças de Odorico e os que estão a favor ou contra ele e nas peculiaridades dos muitos tipos criados por Dias.

Como o hilário Nezinho do Jegue (Wilson Aguiar) – suposta referência do autor ao desafeto Nelson Rodrigues –, que apoia Odorico quando está sóbrio e o critica sempre que bebe. Durante o discurso de Paraguaçu, e diante do relincho do burro Rodrigues, Nezinho exclama: “Quieto que enquanto um burro fala, o outro…“. A observação é certeira; o riso é certo. Também Dirceu Borboleta, que, de tão inocente, mal percebe as investidas de Dulcinéia.

O Bem-Amado completou 48 anos no último 22 de janeiro. É novela do tempo da vinheta de numeração e das cenas dos próximos capítulos; o “voltamos a apresentar”, que marca o fim do intervalo comercial e a retomada do programa, ainda não existia. As cores saltam os olhos, reflexo da inabilidade dos profissionais habituados ao preto-e-branco com produções a cores.

A maratona já vale apenas pela curiosidade. E também pelo apreço a grandes nomes da TV brasileira, como Paulo Gracindo, Jardel Filho, Emiliano Queiroz, Sandra Bréa, Ida Gomes, Dorinha Duval – que abandonou a TV após ser condenada pela morte do marido, que a agredia física e psicologicamente, em 1980. Ainda, a belíssima Maria Cláudia (Gisa) e a incansável Ana Ariel (Zora), de vários trabalhos nos anos 70 e 80.

O mesmo para Dirce Migliaccio (Judicéia) e Zilka Salaberry, eternizadas por suas passagens pela primeira versão global do Sítio do Picapau Amarelo (1977). Dramaturgia da melhor qualidade, O Bem-Amado é programa quase obrigatório para quem aprecia a história da televisão brasileira. Fica a torcida para que o Globoplay resgate outras pérolas – Pecado Capital (1975) está prevista para novembro.

Duh SeccoDuh Secco

Duh Secco é  “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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