Mercado reage com chantagem a “cavalo de pau” intervencionista de Bolsonaro – 22/02/2021

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Recuo forte nos principais índices da Bolsa brasileira, nesta manhã de segunda-feira (22), ao mesmo tempo em que a cotação do dólar subia, também em movimento forte. Reação à intervenção direta do presidente Jair Bolsonaro no comando da Petrobrás. A ação da empresa, com intensa negociação, registrava, em alguns momentos, queda superior a 20%

Era o “mercado” – essa entidade abstrata, mas com ideologia ultraliberal bem definida – passando a mensagem de que ficou (muito) contrariado com a atitude do governo, ao qual dava sustentação até agora, apesar da condução catastrófica do país. Às crises humanitária, de saúde e econômica em que Bolsonaro e seu governo lançaram o Brasil, acrescentou-se agora uma crise confiança dos agentes do mercado financeiro.

Mas o “derretimento” dos ativos, neste início de semana, não pode ser confundido com um movimento econômico estrutural. Nada houve de meados da semana passada para cá que pudesse piorar as perspectivas da economia, além daquelas muito ruins que já era possível projetar antes da canetada de Bolsonaro na direção da Petrobrás.

Prova disso é que o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, escalou os 120 mil pontos dois dias antes do “choque intervencionista” de Bolsonaro, com a indicação de mais um general para presidir a estatal, em substituição a um economista indicado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Os mesmos que agora se desfazem de ações de estatais, mesmo com a economia fazendo água, apostavam na alta até o golpe autoritário de Bolsonaro na Petrobrás. O tombo, de 118 mil pontos para um mínimo de 111 mil pontos, nos primeiros vinte minutos do pregão desta segunda-feira escapa dos fundamentos econômicos.

A situação se assemelha à violenta pressão sobre a cotação do dólar que antecedeu a vitória eleitoral de Lula, em 2002 – falando claro, uma espécie de chantagem. O petista ganhou a eleição assim mesmo, mas foi obrigado a fazer concessões para contornar a reação contrária do mercado. Logo a cotação do dólar acalmou, e, nos seus governos, o real bateu níveis recordes de valorização. A derrubada de cotações de ativos, neste momento, como foi lá atrás, pode ser classificada como um ato político.

Trata-se de pouco sutil demonstração de descontentamento com o “cavalo de pau” intervencionista de Bolsonaro, combinado com a sensação de que Guedes, o fiador das políticas de redução do tamanho do Estado e da abertura de mais espaços para o setor privado, restou no governo com escassa munição. O evidente enfraquecimento político de Guedes, na medida em que o discurso intervencionista de Bolsonaro fica mais estridente, ainda que o ministro prometa muito e entregue pouco, é um elemento chave nesta quadra de decepção do mercado com o governo, e de estresse nas cotações dos ativos.

O vaivém do Ibovespa desde o início de 2021 mostra, sem dúvida, notável volatilidade. O índice bateu em 125 mil pontos, no dia 8 de janeiro, mas recuou para 115 mil, em 20 dias. Daí galgou de novo os 120 mil pontos em 5 de fevereiro e oscilou em torno desse nível elevado até a quarta-feira (17) da semana passada. Tudo isso com indicadores cada vez mais claros de que a economia deve crescer, em 2021, menos do que os 3,5% projetados no começo do ano, com contração já certa no primeiro e talvez também no segundo trimestre.

Vale observar que, ao mesmo tempo em que os preços de ações de empresas estatais derretiam, outros papéis, com destaque para companhias dos setores de varejo e exportação, registravam altas expressivas. Indicação de que investidores não estão tão pessimistas com o ritmo da atividade econômica no futuro, mesmo diante dos atuais picos de contágio da covid-19 e do crescente colapso na oferta de leitos em hospitais, que tendem a travar os negócios. Parece haver crença de que, apesar da lentidão e dos atrasos, a vacinação acabará produzindo um relaxamento nos lockdowns, decretados ou voluntários.

Também não custa lembrar o histórico da atuação de Bolsonaro nos episódios em que ele, por razões diversas e nunca muito claras, estica a corda. Ao perceber o estrago, recua, nega ter dito ou feito o que disse e fez, procura contemporizar. Consolida incertezas, mas abre também espaço para que quem quer ser enganado, agora até mesmo com aumento nas expectativas da saída de Guedes, refaça posições com base numa pretensa retomada de reformas e aplicação de políticas econômicas liberais.

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