França emite não ‘claro e definitivo’ sobre aquisição do Carrefour

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A França reiterou sua oposição à aquisição por 16,2 bilhões de euros (cerca de R$ 103 bilhões) do grupo de supermercados Carrefour pela Alimentation Couche-Tard do Canadá, causando um importante revés para as esperanças do grupo de que pudesse superar as preocupações do governo sobre segurança alimentar e empregos.

“Minha resposta é extremamente clara: não somos a favor do negócio”, disse Bruno Le Maire, ministro das Finanças francês, em entrevista à BFM TV na sexta-feira (15). “O não é educado, mas é um não claro e definitivo.”

As companhias continuavam as negociações do acordo, segundo pessoas inteiradas do assunto, apesar de o governo já ter indicado preocupações na quarta-feira sobre como a associação ameaçaria a “soberania alimentar” da França.

Elas estavam discutindo promessas sobre empregos, suprimentos, governança e administração, além do preço de 20 euros (cerca de R$ 127) por ação da oferta inicial. A Couche-Tard estava preparada para comprometer 3 bilhões de euros (R$ 19 bilhões) em investimentos no Carrefour ao longo de cinco anos, assim como não cortar empregos durante dois anos, disse uma das fontes. Ela também manteria sua listagem na Bolsa de Paris e a sede do Carrefour continuaria na França.

Alain Bouchard, cofundador e presidente da Couche-Tard, havia chegado a Paris na quinta-feira (14) numa tentativa de garantir uma reunião com Le Maire para lhe apresentar a proposta, disseram as pessoas.

Mas a última intervenção de Le Maire parecia destinada a arruinar o negócio antes que ele chegasse a sua mesa.

Pela lei francesa, o governo pode revisar as aquisições de companhias domésticas por compradores estrangeiros em setores considerados estratégicos, como energia, água e telecoms. A França gradualmente expandiu sua lista de áreas cobertas pelo regulamento e no ano passado acrescentou “segurança alimentar”.

“Temos o instrumento jurídico disponível [para bloquear o acordo], embora eu prefira não usá-lo”, disse Le Maire à BFM TV. “O que está em jogo é a segurança alimentar de nosso país… especialmente depois que a crise de saúde nos ensinou que isso não tem preço.”

O Carrefour não quis comentar, e a Couche-Tard não pôde ser alcançada imediatamente para comentar. As ações do Carrefour caíram cerca de 4% no pregão de manhã.

A união proposta visava combinar duas companhias com formatos e pegadas geográficas muito diferentes em um gigante do varejo com valor superior a US$ 50 bilhões (R$ 263,5 bilhões) e o terceiro maior supermercado global, atrás do Walmart e do Schwarz Group, dono da rede alemã Lidl.

A empresa canadense quer diversificar seu negócio de postos de gasolina e lojas de conveniência em supermercados enquanto levaria a Couche-Tard mais para a Europa e a América Latina.

O Carrefour é uma das maiores redes de supermercados da Europa, com cerca de 2.000 lojas e mais de 700 hipermercados na Europa; ela também tem presença no Brasil e na Argentina. O grupo é um dos maiores empregadores no setor privado na França, com mais de 100 mil funcionários.

Philippe Martinez, que dirige o sindicato de trabalhadores de esquerda CGT, disse à France Télévisions na sexta que esses acordos “muitas vezes causam cortes de empregos maciços” e não são “do interesse público, nem dos consumidores”.

“Se o Estado não intervém nesse momento, para que serve?”, disse ele.

Fabienne Caron, analista de varejo da Kepler Cheuvreux, disse que o argumento do governo francês de que o Carrefour é central para a segurança alimentar do país não faz sentido. O grupo detém apenas 20% do mercado de alimentos doméstico, e companhias de propriedade estrangeira como a Lidl operam lá sem problemas.

Ela disse em uma nota que a objeção “só tem a ver com política”, acrescentando: “O negócio está próximo demais das eleições presidenciais e o risco de dar vento de popa ao partido de extrema-direita é grande demais”.

Caso seja mantida, a posição do governo francês significaria que “os varejistas de alimentos na França não podem ser adquiridos, ou seja, nem o Carrefour nem o Casino”.

Caron salientou que a consolidação do mercado de alimentos na França já enfrentou problemas de concorrência, referindo-se a quando dois outros grupos franceses de supermercados, Système U e Auchan, tentaram cooperar em aquisições em 2015, mas os reguladores recusaram.

Fonte: Folha

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