Como provamos que o aquecimento global é causa das queimadas nos EUA

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Como provamos que o aquecimento global é causa das queimadas nos EUA

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Nas últimas semanas, o oeste dos EUA vem sendo consumido por diversas queimadas nos estados de Washington, Califórnia e Oregon. Mesmo acostumados a lidar com incêndios dessa natureza, estes estados estão tendo dificuldade em lidar com a escala dessas queimadas, que desde a segunda metade de agosto já queimaram mais de 1,4 milhão de acres somente na Califórnia.

Uma imagem da extensão das plumas de fumaça pode ser vista aqui.

Apesar de comuns nessa região, a extensão de área queimada aumentou drasticamente nas últimas décadas. Desde a década de 1970, quando se iniciaram as medições por satélite —mais exatas do que as medições anteriores— a quantidade de área queimada por ano na Califórnia aumentou cinco vezes.

A diversidade regional faz com que medidas preventivas sejam difíceis. Queimadas podem ser afetadas por variações naturais do clima, práticas de manejo da terra e do fogo, tipo de vegetação, e outras circunstâncias que variam bastante regionalmente.

O motivo da ignição também tem um papel importante. Esses incêndios afetando o oeste dos EUA tiveram como origem desde relâmpagos a um chá de bebê com fogos de artifício. Para cada local, portanto, a resposta ao aumento de queimadas deve ser feita sob medida para abordar as circunstâncias específica da região.

“Prever o passado”

É sabido que o aumento de queimadas nos EUA é condizente com as predições dos modelos climáticos, que vêm alertando há anos sobre esse problema.

Esses estudos que buscam entender quais processos são responsáveis pelo aumento de queimadas usam uma combinação interessante de modelos climáticos e observações.

Para verificar se os modelos realmente simulam o que acontece no mundo real, é usada uma técnica chamada hindcast, que consiste em usar modelos climáticos para “prever o passado” e depois comparar os resultados às observações no mesmo período. Usando essa técnica, esses modelos climáticos vêm sendo aperfeiçoados há décadas, e a essa altura do campeonato já é possível ver muitas das previsões se concretizando.

Um estudo recente, que associa observações e dados de modelos, concluiu que o aumento de temperatura é o principal responsável por criar um ambiente favorável a queimadas no oeste dos EUA.

Desde a década de 1970, a temperatura média durante o verão aumentou 1,4?C por conta do aquecimento global. Esse aumento de temperatura leva a um déficit de pressão de vapor, que é a diferença entre a quantidade de água que o ar contém e a quantidade máxima de água que esse ar consegue segurar até o ponto de saturação (a partir do qual pode chover).

Como o ar quente consegue segurar mais água que o ar frio, um aumento de temperatura faz com que uma atmosfera “segure mais água” e fique mais “seca”, criando um ambiente mais propício ao fogo.

O aumento da temperatura vem aliado a dois fatores que pioram ainda mais o problema: a temporada seca está durando mais e o impacto da temperatura no déficit de pressão de vapor aumenta exponencialmente. Como resultado, quanto mais quente, maior a possibilidade de queimadas.

A progressão das áreas sujeitas a seca nos EUA durante esse ano pode ser vista aqui:

Imagem: climate.gov

Política complica tomada de medidas

O problema já é grande e pode aumentar ainda mais, e cada área requer uma solução específica. Nem todas as florestas são iguais e algumas, como é o caso da Califórnia, se recuperam de queimadas esporádicas. Aliás, não só se recuperam como queimadas pequenas aumentam a diversidade e a resiliência a outras perturbações naturais como queimadas maiores ou períodos de secas.

A recomendação de especialistas é realizar queimadas controladas em áreas específicas, como que controlando um tabuleiro de xadrez. Assim, uma queimada mais forte pode ser contida ao esbarrar em florestas em regeneração, que fornecem menos combustível.

Apesar de especialistas concordarem que queimadas controladas são a melhor opção, a implementação é dificultada por diversos fatores que podem ser políticos.

O medo de que essas queimadas fujam do controle, a reclamação de moradores que seriam afetados pela fumaça e o medo que políticos locais têm de enfrentar a baixa popularidade dessas medidas geram dificuldades.

Toda vez que uma queimada natural se iniciou nas últimas décadas, ela foi imediatamente suprimida, o que fez com que combustível fosse se acumulando ao longo de décadas.

Uma outra medida impopular é estimular modificações nas casas e prédios para torná-las mais resistentes ao fogo, pois esbarram no custo de adaptação dos imóveis já construídos e não decisão de quem irá pagar por isso.

Além disso, somos muito ruins de estimar quanto risco corremos, de maneira que comunidades geralmente não se sentem em perigo até que seja muito tarde. É preciso aceitar que queimadas são inevitáveis e que é necessário escolher o menor dos males.

Efeitos no bolso e na saúde

Enquanto nós, como cidadãos, continuamos discutindo a severidade dos efeitos do aquecimento global e se vale a pena gastar dinheiro com adaptações aos seus efeitos, seguradoras ao redor do mundo têm tomado nota do que dizem os modelos climáticos.

O governo da Califórnia teve que colocar uma moratória para evitar seguradoras de cancelar o seguro de cerca de 800 mil casas localizadas em áreas de risco. Quando essa moratória vencer, no entanto, é esperado que aconteça um colapso no mercado imobiliário da região.

As queimadas também têm um impacto imediato na saúde, já que as partículas finas geradas pelas queimadas levam a problemas respiratórios, cardiovasculares e morte prematura, afetando principalmente crianças e idosos.

Os custos na saúde, portanto, também são extremamente altos e podem complicar a situação em tempos de covid-19, ao expor cidadãos com problemas respiratórios ao vírus.

Ao evitar tomar as medidas necessárias para conter as queimadas por medo do custo econômico e político, o oeste dos EUA se tornaram um exemplo de onde o barato acaba saindo caro.

* Cristina Schultz é oceanógrafa formada pela USP, com mestrado em meteorologia pelo Inpe e doutorado em oceanografia química pelo Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) e o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Atualmente faz pós-doutorado na Universidade da Virgínia (UVA). Sua pesquisa é focada em combinar o uso de dados coletados em cruzeiros oceanográficos e modelos para entender as consequências das mudanças climáticas observadas durante as últimas décadas na química do oceano e no ecossistema marinho em áreas polares (mais especificamente na Península Antártica, no Golfo do Alaska e no Mar de Chukchi)

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