Bolsonaro dobra intervenção, mercado reage e Guedes finge que não é com ele – 02/03/2021

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É hora de redobrar as preocupações com o comportamento da economia brasileira. Essa convicção não se sustenta em novos indicadores apontando a piora na conjuntura. Estes também não estão bons, mas a certeza de que as coisas andam mais complicadas vem do aumento do tom das promessas de salvação e chegada ao paraíso econômico, nas declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes.

É batata! Toda vez que Guedes, o todo poderoso condutor da economia, tira o corpo fora e quer passar a ideia de que não tem nada a ver com as trapalhadas na política econômica do governo Bolsonaro, ele surge em alguma exaltada defesa de seu ultraliberalismo atrasado em quatro décadas, como saída virtuosa para a economia brasileira. É sinal certo de que o negócio saiu mais um pouco dos trilhos.

Nesta terça-feira (2), os mercados de ativos estão reagindo como esperado – e mal – a uma nova intervenção do governo no mercado de combustíveis. Ou seja, os índices sofrendo com ordens de venda de papéis. No início do expediente da tarde, a Bolsa de Valores recuava, com o Ibovespa, seu principal índice, se fixando em 110 mil pontos, depois de ter caído para menos de 108 mil pontos, nível em que se encontrava em fins de novembro passado. Mais perto do fim do pregão, corrigindo exageros, as cotações aliviaram um pouco. No mercado de câmbio, o dólar resistia acima de R$ 5,70, mesmo com o Banco Central atuando para moderar as altas.

A curva de juros futuros, indicador relevante para aferir o nível de estresse do mercado, também deu um pinote. De acordo com sua nova trajetória, os operadores estão apostando numa alta de 75 pontos na taxa básica, na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), marcada para daqui duas semanas. É um exagero que apenas revela o elevado grau de tensão existente entre os corretores e clientes do mercado financeiro. De todo modo, está cada vez maior o grupo de analistas que projeta taxa Selic, hoje em 2% ao ano, em 5%, no fim de 2021.

Toda essa instabilidade se deve a uma combinação de fatores adversos, quase todos com origem interna, pois os elementos externos se apresentam, no momento, em geral favoráveis. Esses fatores negativos refletem as travas na atividade econômica que o recrudescimento da pandemia de covid-19 no Brasil, neste começo de 2021, em conjunto com o atraso no processo de vacinação, estão promovendo.

O salto no número de casos está levando ao colapso do sistema hospitalar em praticamente todos os estados e municípios. Com isso, o número de mortes aumenta, pressionando os governadores a decretar lockdowns, toques de recolher ou outras restrições à circulação de pessoas. É aqui que a economia fraqueja, especialmente nos setores de maior peso na formação do PIB (Produto Interno Bruto), comércio e demais serviços.

Ocorre que, se os resultados negativos do “abre-e-fecha” econômico só aparecem a médio prazo, não promovendo estresses agudos no mercado de ativos, tentativas de intervenção – e intervenção desastrada – nos preços, como as que Bolsonaro tem anunciado em escalada crescente, são fagulhas nas incandescentes incertezas e inquietações do mercado. Em reação a mais um aumento nos preços dos combustíveis, determinado pelo presidente da Petrobras que ele destituiu, mas ainda não substituiu, Bolsonaro anunciou que zeraria o PIS/Cofins embutido nos preços. Para compensar a perda de arrecadação, anunciou também um aumento de impostos para instituições financeiras, com alta na alíquota da CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido).

Trata-se de uma intervenção antes de tudo desastrada. Primeiro porque não se apoia em nenhuma política planejada e organizada. Ao contrário, mexe com o mercado sem medir e mitigar consequências. Se, enfim, não é certo que determinará baixa de preço final a consumidores, é provável que contribua mais para provocar instabilidades que podem acabar contrariando os objetivos da medida.

Além de intervir em mercados oligopolizados, formados por poucos vendedores, com maior poder de fixar preços, a ação do governo pode afetar, como está ocorrendo, as cotações do dólar, custo básico na formação dos preços dos combustíveis. É um tiro que tem tudo para sair pela culatra.

Depois de tentar agradar à categoria específica dos caminhoneiros, ao sugerir cortar impostos com a arrecadação alheia, interferindo no ICMS, um imposto estadual, embutido no preço dos combustíveis, Bolsonaro dobrou a aposta populista com as medidas agora anunciadas. Compensou o corte em tributos federais atingindo o setor financeiro, que, por negociar mercadoria escassa e indispensável – o dinheiro -, goza de antipatia geral na população.

Há, nessa trapalhada toda, uma intrigante questão à espera de uma resposta. Quem está “formulando” essa “política” de preços, com intervenções diretas nos tributos? Será que elas são formuladas pelo próprio Bolsonaro, aquele que, confessada e reconhecidamente, não “entende de economia”? O “Posto Ipiranga” está sem combustível (sem trocadilho) e não tem nada com isso? Se não é Guedes, quem?

Enquanto a pergunta continua sem resposta, Paulo Guedes parece querer dizer que não é com ele. Também nesta terça-feira foi divulgado o vídeo de uma conversa do ministro com um youtuber, em que Guedes faz mais um dos seus conhecidos – e furados – vaticínios.

Guedes afirmou que “o Brasil pode virar uma Argentina ou uma Venezuela rapidamente caso continue “aumentando seu endividamento e tome decisões erradas de política econômica”. Que estranho. Não é ele quem está, com totais poderes, há dois anos e três meses, à frente da política econômica?

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