Alta de IPOs em 2020 é só início da onda, diz presidente de câmara da Bolsa – 20/09/2020

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Alta de IPOs em 2020 é só início da onda, diz presidente de câmara da Bolsa – 20/09/2020

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As vendas de novas ações este ano já giraram mais de R$ 66 bilhões em 47 operações, entre Ofertas Públicas Iniciais (IPOs, na sigla em Inglês), quando uma empresa vende ações pela primeira vez na Bolsa, e follow-on, quando uma companhia já listada decide aumentar a quantidade de suas ações no mercado. Como ainda há uma fila com pelo menos outras 45 empresas que aguardam autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), é quase certo que esses negócios vão bater os R$ 90 bilhões de 2019, afirma Alvaro Gonçalves, presidente da Câmara Consultiva de Empresas e Estruturadores de Ofertas da B3.

“É pouco comemorar ter 30 IPOs levando em conta o tamanho do mercado brasileiro. Deveria ser muito mais”, disse o executivo que preside um órgão da Bolsa formado por 20 representantes —de empresas e bancos a escritórios de advocacia e fundos de investimento— com papel de ajudar a B3 na criação e aprimoramento de produtos e serviços.

Gonçalves, que também atua há quase três décadas na Abvcap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital, que reúne os fundos de investimento de longo prazo no país), diz que os chamados private equities, que compram participações em empresas de capital fechado, representam muitas vezes o primeiro passo de uma companhia antes de abrir capital na Bolsa.

“O número de operações na Bolsa é baixo, inclusive se comparamos com o que vemos nos fundos de private equity, que superaram os 300 negócios por ano”, disse Gonçalves, também sócio e fundador da firma de private equity Stratus. O executivo diz que o número de brasileiros investindo na Bolsa ainda é baixo e que não vê risco de que o aumento de ofertas de IPOs leve os preços das ações a uma situação de bolha.

O preço de Bolsa está 40% atrás de 11 anos atrás. A gente ficou em coma por dez anos, estamos caminhando bem devagarzinho agora e já tem gente dizendo que é para ter calma porque tem perigo de bolha. Como assim?
Alvaro Gonçalves

Veja abaixo os principais trechos da conversa.

UOL: Por que 2020 tem sido positivo para IPOs em meio a uma crise econômica?

Alvaro Gonçalves: A verdade é que, desde 2016, quando os juros começaram a cair, já havia a expectativa de que as operações na Bolsa iriam crescer. Mas tivemos a crise política, a recessão e outros fatores que atrapalharam o processo. Por isso, é pouco comemorar ter 30 IPOs em um ano. Levando em conta o tamanho do mercado, deveria ser muito mais.

O número de operações na Bolsa é baixo, inclusive se comparamos com o que vemos nos fundos de private equity, que superaram os 300 negócios por ano. Mas, como já tivemos no Brasil ano com zero IPO, quando tem 20 IPOs é comemorado.

Segundo a Bolsa, o número de contas de pessoas físicas chegou a 2,9 milhões ante 1,6 milhão em 2019. Esses investidores representam 23,6% de participação do mercado, ante 18,2% um ano antes. Qual a importância das pessoas físicas nesse ciclo de IPOs?

Temos um cenário de juros negativos não só no Brasil, mas no mundo, onde há US$ 40 bilhões aplicados em títulos privados a juros negativos. Nesse contexto, o jogo dos empréstimos financeiros fica muito pouco rentável. Então, o capital migra para a Bolsa. O ponto é que isso vem ocorrendo lá fora há quase uma década, mas o Brasil ficou atrasado oito anos por causa de problemas internos, como impeachment, a discussão sobre previdência pública, além da nossa tradição de rentistas, de querer ganhar fácil com aplicação sem risco.

Mas com a Bolsa em alta desde 2016 e a entrada de tantos investidores, não existe um risco de os preços estarem artificialmente elevados?

Não, se fizermos as comparações corretas. Se a gente comparar os índices Ibovespa e SP500, dos Estados Unidos, por exemplo, dando base 100 em 2010, o Ibovespa saiu de 100 para 143, enquanto o SP500 foi a mais de 300. Mesmo considerando as economias dos dois países, é uma diferença muito grande.

Outro número. No pico histórico do Ibovespa, em maio de 2009, levando em conta o IPCA, aquele recorde seria hoje o equivalente a 139.311 pontos. E qual era o juro naquela época? Era de 11% a 12%. Ou seja, a gente tinha um Ibovespa de 139.311 pontos com um juro muito mais alto que hoje.

O preço de Bolsa está 40% atrás de 11 anos atrás. A gente ficou em coma por dez anos, estamos caminhando bem devagarzinho agora, e já tem gente dizendo que é para ter calma porque tem perigo de bolha. Como assim?

E como esse aumento de IPOs faz parte desse ciclo de juros baixos?

Quando os juros caem, as empresas buscam primeiro empréstimos, para ir depois em busca de Bolsa. Assim, vimos que aumentaram as emissões de debêntures e outros títulos de dívida. É, então, natural que ocorram na sequência mais follow-ons que IPOs no primeiro momento. Quem faz follow-on já tem ações na Bolsa, está indo novamente e, assim, são casos de empresas mais preparadas e prontas para captar. Na sequência, então, os IPOs também crescem, com a chegada das empresas que foram se preparando depois.

E qual o papel dos fundos de private equity nesse processo?

O mercado está com mais dinheiro, mas não pense que está menos seletivo. Private equity traz empresas para um tamanho mais adequado para o mercado e também prepara a gestão da companhia em termos de gestão e para relações de mercados. O private equity atua para investir tanto para aglutinar as menores empresas, criando uma operação maior, como para preparar as empresas que já são maiores.

Pesquisas mostram que empresas que tiveram private equity antes de IPO se valorizam mais rapidamente.

Qual seu cenário para depois de 2020?

Mesmo que tenhamos surpresas negativas, na economia ou na política, teremos mais IPOs. A Bolsa veio para ficar. Temos interesse dos investidores por ações, o que é um elemento hoje cada vez mais comportamental. As pessoas hoje querem saber o que está acontecendo com o seu dinheiro.

Muita gente também está percebendo que, ao investir numa empresa, pode ser ativista com seu próprio dinheiro, em vez de dar dinheiro para Brasília, que é o que acontece quando alguém aplica na poupança ou compra título do Tesouro.

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